Segundas intenções

novembro 21, 2004

Todos já ouvimos a expressão “fulano está com segundas intenções”.
Para entendermos melhor o que isso pode significar, vamos considerar que tudo o que fazemos, dizemos, pensamos, enfim; todos os nossos atos têm uma razão, um motivo ou intenção que nos fizeram agir desta ou daquela forma. A partir disso podemos dizer então que tudo é motivado por uma intenção primária, as atitudes que têm um objetivo oculto, e quase sempre para benefício próprio, podem ser chamadas de coisas feitas com segundas intenções.
Esta é uma definição bem simplista perto da complexidade da mente e emoções humanas, que interferem em cada ato ou palavra que pronunciamos, mas é um ponto de partida.
Uma atitude, uma frase, o desenvolvimento de um relacionamento, qualquer coisa pode ter intenções que não sejam primárias; por exemplo: uma pessoa que ocupa um cargo importante numa grande empresa pode ter 2 tipos de amigos; aqueles que têm simplesmente a intenção primária de serem companheiros e compartilharem suas vidas, e aqueles que desenvolveram uma amizade com a segunda intenção de se beneficiarem de alguma forma, pela posição ou importância do seu amigo.
Relacionamentos desenvolvidos a partir de interesses pessoais são bem mais comuns do que se imagina e atingem todas as classes da sociedade. Nos relacionamentos afetivos também acontece tal fato.
Muitas pessoas diriam que o motivo para terem se casado foi o amor, mas o amor que o mundo conhece, na minha opinião, sempre possui uma segunda intenção; seja ela financeira, posição social, satisfação sexual, realização de um projeto pessoal, entre tantas outras. Aquilo que muitos chamam de amor, é muitas vezes um sentimento egoísta, que busca alguma forma de benefício próprio.
Mas existe de fato amor sem segundas intenções? Amar simplesmente por amar sem receber nada em troca? Um amor que não depende de circunstâncias, que não avalia os “prós e contras”, um amor que simplesmente ama? Eu creio que exista, mas aí já não é mais um sentimento, e sim um dom de Deus. Ele sim, ama incondicionalmente.
Mas não vou colocar um ponto final aqui e simplesmente concluir que amor verdadeiro só o de Deus para conosco. Eu também acredito que este amor genuíno deve ser manifestado através dos seus filhos, creio que só assim nós estaremos refletindo a luz de Deus, a essência de tudo o que Jesus disse. “… amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há mandamento maior do que este…”. (Mc 12:31)
Não só no âmbito conjugal ou de namoro, mas também nas amizades, nós podemos, e devemos, manifestar o amor de Jesus, desenvolvendo relacionamentos onde não exista nenhuma outra intenção a não ser a própria manifestação do amor, formando assim uma grande família. É claro que a partir disso virão os inúmeros benefícios de se viver tendo ao redor pessoas que nos querem bem, mas o bem estar, a ajuda mútua e o prazer de termos com quem compartilhar nossa vida, são conseqüências, frutos do amor cristão manifesto em nosso meio através das pessoas à nossa volta. Gosto muito da expressão que um amigo usou uma vez para explicar a essência de sua busca por amizades, ele escreveu que deseja “encontrar Jesus no rosto das pessoas”, achei isso muito lindo. Deus nos fez viver em sociedade para que tivéssemos contato com outros seres imperfeitos como nós, para manifestarmos o amor incondicional com o qual Ele mesmo nos ama, só assim iremos realmente cumprir o propósito divino e o maior mandamento de todos, o amor.
“(Jesus) Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade, que leva ao amor fraternal não fingido, amai-vos ardentemente uns aos outros de coração…” (1Ped 1:22)

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Protestantes ou coniventes?

novembro 10, 2004

Deixem-me lembrá-los dos cinco pontos da Reforma Protestante:

Sola Gratia: A salvação se dá somente pela graça (favor imerecido) de Deus;
Sola Fide: A fé no sacrifício de Jesus Cristo é o único meio pelo qual o homem pode se achegar a Deus;
Solus Christus: Jesus Cristo deve ser o único objeto da nossa fé;
Soli Deo Gloria: A Deus toda a glória;
Sola Scriptura: A Bíblia é o único “documento” deixado por Deus para conhecermos Sua vontade.

A Reforma iniciada por Martinho Lutero foi sem dúvida um momento histórico dirigido por Deus, havia chegado a hora de uma grande revolução acontecer no meio da igreja cristã que estava contaminada com doutrinas e costumes de homens e até de religiões pagãs.
Por estes princípios muitos homens, se tornaram mártires, muitos foram perseguidos e até mortos simplesmente porque decidiram serem fiéis às Escrituras e não quiseram se deixar contaminar pelas tradições religiosas e culturais, que não tinham nenhuma fundamentação bíblica e muitas delas eram totalmente abomináveis aos olhos de Deus.
A igreja protestante nasceu em meio à perseguições e mortes, muito sacrifício foi necessário para que finalmente muitos tivessem livre acesso à Bíblia escrita em sua própria língua, foi necessária uma grande revolução para que pudéssemos nos libertar das falsas doutrinas impostas durante anos dentro de uma igreja que contaminou a pura verdade de Deus com diversos ensinos heréticos.
Graças a Deus pela vida dos homens, que foram torturados e mortos para que pudéssemos ter acesso à Sagrada Escritura, e assim conhecer a verdade que liberta, discernir o que é verdadeiro do que é falso, fugir daquilo que é errado e praticar somente a justiça… Mas é isso o que temos feito?
Hoje a igreja protestante parece ter esquecido o seu passado e vive uma nova fase, onde nada é tão ruim quanto parece, onde não existe verdade absoluta e o conceito de certo e errado varia de acordo com a situação. Hoje não podemos “falar mal” de nada e de ninguém, ouvimos as mais absurdas mentiras e ficamos quietos em prol da boa etiqueta. Nem nos denominamos mais protestantes, somos apenas evangélicos, mas até esta denominação não faz jus ao que somos, não somos mais nada, pois entramos numa hipocrisia sem fim, como se pudéssemos ficar neutros à tudo o que acontece a nossa volta e simplesmente “respeitar a fé de cada um”. Fazemos vistas grossas aos costumes abomináveis da sociedade que nos cerca, não contestamos mais os ensinos heréticos, que infelizmente têm contaminado inclusive a igreja “evangélica”. Enfim, não somos mais protestantes e sim coniventes com tudo o que se passa, com cada um olhando para o seu próprio umbigo, quando muito para seu grupinho, vivendo a sua vidinha sem fazer a mínima diferença aos que estão à sua volta. Somos a igreja de Laudicéia, a igreja morna, que conhece a verdade, mas não combate a mentira, que pensa estar abastada e bem sucedida, mas é miseravelmente pobre.
Jesus Cristo revela a profecia da igreja no fim dos dias à João dizendo: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.” (Ap 3 v. 15-17)
Nós, “os crentes modernos”, não somos mais caretas, curtimos a vida adoidado, é claro que os mais certinhos não vivem enchendo a cara de bebida e nunca experimentaram drogas, mas puxa vida… quem é que nunca tomou um porre na vida? Faz parte da juventude! Nem que seja pra acordar com dor de cabeça e “aprender na prática” que não vale a pena. Os relacionamentos afetivos de hoje também “evoluíram” bastante, até que somos diferentes dos baladeiros natos, mas nem tanto assim também… é de se esperar que as mocinhas da igreja não saiam na noite “dando” pra qualquer um, mas sem problemas se alguém “ficar” de vez em quando, afinal quem agüenta passar tanto tempo na “secura”? Enquanto não achamos a pessoa certa pra casar não tem nada de mais dar uns beijinhos…
Nosso comportamento é repulsivo, a começar por mim. Mesmo tendo um comportamento mais pudico, quando penso na morte terrível que Jesus Cristo padeceu para que eu pudesse ser santificada e salva para sempre, eu olho para minha vida e me sinto constrangida. Que diferença temos feito na nossa casa, na faculdade, no trabalho? Temos sido sal e luz? Temos observado o nosso comportamento, o tipo de música que ouvimos, o tipo de roupas que vestimos? Temos contestado o assunto das nossas rodinhas de conversa? Temos protestado contra os costumes da nossa sociedade? Temos analisado as mentiras que têm se infiltrado no meio cristão? Enfim… será que estamos dando valor ao que somos? “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.” (I Cor 6v.20). Que Deus tenha misericórdia de nós, e que nos chame para sermos novamente vozes que clamam no meio da multidão. Vozes que alertam, vozes que protestam! Sejamos protestantes!