Introspecção

fevereiro 25, 2005

Quando sentada ali mesmo no chão, coberto pela relva verde, uma pequena estrela no canto mais escuro do céu, ou a última folha de um Ipê despedindo-se do verão, podem adquirir um poder quase hipnótico, fazendo os olhos fixarem-se num só ponto por horas.
Passado e futuro passam a ocupar a mente, que parece desligada de tudo à sua volta.
Algumas lembranças do passado roubam lágrimas que escorrem pelo rosto, outras esboçam um leve sorriso nos lábios.
A expectativa do futuro traz esperança e ao mesmo tempo medo. Pensar em tudo o que está por vir, por si só já é cansativo, mas sem muita explicação sobrevém o ânimo.
Passado, futuro, tristeza, alegria, esperança, incerteza…
Tudo isso testemunhado por uma simples estrela ou uma folha solitária. Corpos inertes e indiferentes.
Mas não fique triste, quem os criou também estava ali, e entendeu cada um dos seus suspiros.


Carlos Drummond de Andrade

fevereiro 18, 2005

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

Carlos Drummond de Andrade


A Perfeição – Clarice Lispector

fevereiro 6, 2005

A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

Gosto muito deste poema de Clarice Lispector, ela o intitulou “A perfeição”, mas também poderia chamar-se “A soberania de Deus”, que por sua vez é perfeita, e é isso também o que me tranqüiliza.